sábado, 7 de novembro de 2009

VIVENDO A VIDA

Vivemos, de fato, num mundo em que impera a racionalidade: em que tudo tem que ser eficaz e, por isso, produzir fruto, segundo o ditado inglês de que “time is money” (o tempo é dinheiro), como se tudo pudesse ser comprado, vendido e pago... A gratuidade do amor (Família, amigos...), do descanso e da festa estão em baixa. Parece até que tudo o que não rende dinheiro deixou de ter valor...Ora a vida – a verdadeira vida - tem sobretudo a ver com o coração, com o que é espiritual... A verdadeira vida vive da Graça: da gratuidade... Tudo o que vale na vida é fruto da graça, da gratuidade, a começar pela própria vida, recebida de graça... Quem poderá, por exemplo, comprar ou vender a alegria e a felicidade de viver? Afinal que rendimento material teve quem nos amou, durante o tempo da nossa gestação e educação? Que ganharam os nossos Pais com o tempo que perderam conosco e que nós lhes fizemos perder? Materialmente falando: nada. Mas ganharam-nos a nós, fazendo de nós filhos, passando nós a valer para eles o que nenhum dinheiro do mundo poderia pagar, constituindo a nossa vida o seu maior investimento e a sua maior riqueza. Também aqui vale o que Jesus disse: «Quem quiser salvar a sua vida, perde-a; e quem a perder por meu amor, ganha-a» .Gastamos tantas vezes a vida, perdemo-la, ou, pior ainda, matamo-nos, como se diz – a procurar ganhar o que, com frequência, não nos traz benefício nenhum, por não termos tempo de gastar e saborear o que acumulamos com tanto trabalho, sacrifício e canseira, ou por termos que o deixar a outros que em nada colaboraram!... E quando abrimos os olhos, se chegamos a abri-los é, quase sempre, tarde demais...Diz a Bíblia que «Deus descansou, no 7.º dia, de todo o trabalho que tinha tido com a Criação». Um homem não é de ferro – dizemos por vezes. Mas, nos tempos que correm, procedemos, como se fôssemos de ferro, sem tempo para o lazer, para o descanso. Afinal, não será o melhor tempo da nossa vida o que ‘perdemos’ com a família: o marido, a esposa, os filhos, os Pais? “Foi o tempo que perdi com a minha flor, que a tornou tão importante” (Saint Exupéry). Que ganhamos com isso? Salvamo-nos a nós, salvando a família, o que não é nada pouco...
Descansar é ‘perder’ tempo para nos encontrarmos e estarmos pura e simplesmente conosco... Estar conosco, fazendo por ventura o que nos dá gosto e prazer e que não podemos fazer, quando e enquanto trabalhamos... Hoje em dia até o tempo de lazer se tornou tempo de ‘stress’, em que procuramos gozar por atacado o que precisaria de tempo.
"Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do céus."

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A MOÇA TECELÃ

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear. Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte. Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava. Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela. Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza. Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias. Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer. Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado. Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta. Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida. Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade. E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar. — Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer. Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente. — Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata. Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira. Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre. — É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos! Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer. E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo. Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear. Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela. A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pé desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu. Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

* Marina Colasanti (1938)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

ME ABRINDO

Gosto de sangue quente...
que escorre pelos meus fios e,
vão se desenrolando pelas bordas do travesseiro
me dando sabor de mel... enchendo minha boca.
Hoje vejo seu rosto com clara vida.
Hoje posso oferecer o que a lua me exige.
Há dias tenho sonhos de luxúria viva.
Há dias desejo tua língua feito faca romper a minha.
Meus instintos desnudam-se ao buscar teus olhos
E o teu cheiro embebeda-me, vagueia em desordem pelo meu corpo.
Procuro o veneno em tua face escondida para poder morrer.
Procuro o teu sagrado para poder viver.

sábado, 17 de outubro de 2009

HORA DA VIRADA


E de repente acontece
Você acha que já está tudo sob controle
Que já fechou todas as portas e janelas
E ai como um vento forte, que entra sem bater.
O novo passa por todas as frestas
E como um fantasma que só nós podemos ver
Se faz presente em todos os lugares
Tira nossa atenção
Nos faz rir e esperar pelo que não sabemos
E apenas algumas gotas, se transformam em correntezas.
Então temos que mudar nosso percurso.
Mudar tudo de lugar, ou deixar toda essa água escapar como se não a quiséssemos.
Eu vou decidir, só estou respirando fundo primeiro.
Para ou por toda água pra fora, ou para ter coragem de mergulhar fundo nela.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

SECRETO PRESENTE


Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem-querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálido e perdido e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro ... eu tremo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

É GRANDE ESSE MISTÉRIO

Numa noite dessas num bar numa roda de amigos, ficamos à discutir sobre relacionamento entre homem e mulher. Esse assunto não tinha fim, todos queriam dar sua opinião.
Voltei pra casa e busquei em Deus a sábia conclusão desse tema, afinal de contas Ele é o autor do matrimônio.
Concluí que:
Ao falar do matrimônio, São Paulo diz que “é grande este mistério” (Ef 5,32). E o Apóstolo explica que é grande porque “se refere a Cristo e à Igreja”. Jesus referiu-se a Ele como o Esposo, presente entre os convidados daquela bodas: “o Esposo está com eles” (Mt 9,15). Com esta imagem, Ele indicava quanto o amor de Deus para com o homem se reflete no amor de um homem e uma mulher, unidos em matrimônio.
Jesus se apresenta como o Esposo, na sua Pessoa ele revela Deus como o Esposo do povo, de Israel no Antigo Testamento e da Igreja na Nova Aliança. João Paulo II dizia que “o amor humano é a grande analogia para se falar do amor de Deus”. E também a relação sexual do casal assim unido significa algo muito além da mera genitalidade, é transcendente, pois não existe na terra nenhuma outra relação que exprima mais fortemente a intimidade que Deus deseja ter com cada um de nós hoje e sempre. Por isso, o prazer do ato sexual foi dado por Deus e é legítimo e licito para o casal unido pelo matrimônio; esse prazer é uma amostra, um sinal, um indício, do que será a alegria da união eterna com Deus. Esse prazer estonteante é como que uma porta aberta para “o que Deus tem preparado para os que amam”, como disse S. Paulo (1Cor 1,9).
Uma vez que a união conjugal foi transformada em um sacramento por Jesus, a sua união envolve o próprio Deus, que dá grande sentido ao ato sexual. O Concilio Vaticano II disse que “o legítimo amor conjugal é assumido no amor divino” (GS).
O casal nunca pode esquecer que o ato sexual é a celebração do seu amor; por isso ele vai sempre além das aparências e do prazer; por isso, deve ser um ato sem pressa, respeitando o ritmo do outro e seus limites. Cada um deve ter a liberdade de comunicar ao outro as suas dificuldades, seus desejos, sem fingimento e sem constrangimento, para aprimorar esta “celebração do amor conjugal”. Isso faz com que a relação sexual do casal mude com o tempo, e vá se ajustando às necessidades de cada um.
Se houver alguma dificuldade, aquele que mais ama, ou tem mais facilidade, deve logo iniciar o diálogo amigo para superar algum problema. Não permitam que o silêncio sepulcral os enterre na tristeza e na frieza. Muitas vezes uma relação sexual pode significar o recomeço de uma nova vida, o reinício de uma comunhão interrompida por algum problema. É preciso estar disposto a sempre recomeçar, isso significa amar primeiro. O amor não é somente um ato de sentimento, mas também um ato de vontade, de domínio, que quer o bem do outro. É preciso buscar fazer da existência um ato contínuo de amor ao longo do tempo.
Muitas vezes o casal terá que se perdoar; e isso não quer dizer simplesmente esquecer o erro cometido pelo outro. Perdoar não é um ato de fraqueza e nem considerar sem importância a ofensa recebida; o perdão não é um gesto de indiferença; é um ato de vontade; é um decisão lúcida e livre de quem sabe o valor que tem de acolher o outro apesar de nos ter ofendido ou prejudicado.
O Papa nos ensina, na Carta às Famílias, que a presença de Jesus nas Bodas de Caná, com a Mãe e os seus discípulos, realizando ali o “primeiro” milagre, “pretende assim demonstrar quanto a verdade da família esteja inscrita na Revelação de Deus e na história da salvação” (CF,18).
S. Paulo ensina que o amor do casal é o reflexo do amor de Cristo para com a Igreja, e sua união sinaliza na terra, esta “Aliança” eterna e indissolúvel. Nesta lógica, o Apóstolo exige:
“Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la , purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5,25-27).
Essas palavras mostram que a Igreja é a Esposa de Cristo, objeto de todo o seu amor. Ele fez dela o seu próprio Corpo, que chamamos de Místico. Cristo tornou-se, então, “uma só carne” com a Igreja, fez-se a sua Cabeça. Isto levou o Apóstolo a dizer:
“As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o Chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador.” (Ef 5,22)
Esta “submissão” só pode ser bem entendida quando se olha para a submissão da Igreja a Cristo. Longe de ser uma anulação ou escravidão, é uma cooperação amorosa com a cabeça que dirige o corpo. É, na verdade, uma submissão recíproca. A palavra submissão significa estar “sob missão”, quer dizer, a esposa deve ajudar o esposo a cumprir a difícil missão de manter o lar e educar os filhos.
Santo Ambrósio, bispo de Milão, que batizou Santo Agostinho, já dizia aos maridos no século IV:
“Não és o senhor, mas o marido; não te foi dada como escrava, mas como mulher… Retribui-lhe as atenções tidas para contigo e sê-lhe agradecido por seu amor.” (Exameron, V,7,19)
A experiência mostra que os casais e as famílias mais felizes, são aquelas em que a esposa coopera docilmente com o marido na sua difícil tarefa de dirigir o lar. Aquelas mulheres que querem assumir o comando do lar, anulando o marido, muitas vezes experimentam a solidão e a insegurança. O perfil psicológico da mulher está muito mais para ser apoiada e protegida, do que para mandar.
Só conseguimos entender bem o mistério do casamento à luz da Aliança de Deus com a humanidade, desde Adão, até a nova e eterna Aliança de Cristo com a Igreja. O matrimônio cristão tem estas três características: Indissolubilidade, Fidelidade e Fecundidade, exatamente porque essas são as características do amor de Cristo para com a Igreja. É uma Aliança indissolúvel, eterna, celebrada uma vez para sempre no sangue do Cordeiro; é uma Aliança que não admite traição de ambas as partes; e é uma Aliança fértil de onde renascem os filhos de Deus pelo Batismo.
O Catecismo da Igreja mostra bem esta verdade:
“O amor conjugal comporta uma totalidade na qual entram todos os componentes da pessoa – chamada do corpo e do instinto, força do sentimento e da afetividade, aspiração do espírito e da vontade; o amor conjugal dirige-se a uma unidade profundamente pessoal, aquela que, para além da união numa só carne, não conduz senão a um só coração e a uma só alma; ele exige a indissolubilidade e a fidelidade da doação recíproca definitiva e abre-se na fecundidade” (CIC, 1643).
A aliança de Deus para com Israel apresenta-se sob a imagem de um amor conjugal exclusivo e fiel. Na Antiga Aliança, o Esposo é o próprio Deus, Javé, que se apresenta como o Esposo de Israel, povo eleito: um Esposo fiel e ciumento, terno e exigente. Todas as traições de Israel, deserções e idolatrias, dramaticamente descritas pelos Profetas, não conseguem acabar com o amor deste Deus-Esposo, que em Jesus Cristo, finalmente, “ama até o fim” (Jo 13,1), este povo que o rejeita e o leva à Cruz.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

SOB O OLHAR DE DEUS


Pai amado, eu me ponho em tuas mãos.
Não quero dizer faça o que queres de mim,
Mas me abandono numa total fragilidade humana.
Certa que teu braço é a minha força. Amém!

Filha minha, faze o que fazes com doçura, e mais do que a estima dos homens, ganharás o afeto deles.
Quanto mais fores elevada, mais te humilharás em tudo, e perante Deus acharás misericórdia; porque só a Deus pertence a onipotência, e é pelos humildes que ele é (verdadeiramente) honrado.
Não procures o que é elevado demais para ti; não procures penetrar o que está acima de ti. Mas pensa sempre no que Deus te ordenou. Não tenhas a curiosidade de conhecer um número elevado demais de suas obras,
pois não é preciso que vejas com teus olhos os seus segredos.
Acautela-te de uma busca exagerada de coisas inúteis, e de uma curiosidade excessiva nas numerosas obras de Deus,
pois a ti foram reveladas muitas coisas, que ultrapassam o alcance do espírito humano.
Muitos foram enganados pelas próprias opiniões. Seu sentido os reteve na vaidade.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

ELA...

Ela tinha os olhos mudos, e alma embriagada de sentidos todos indo e vindo entre as esquinas dos seus sentimentos, às vezes se encontravam, outras se perdiam.
Suas escolhas pareciam irracionalmente nebulosas, os olhares pairavam sobre ela, sobre seus gestos, sobre suas palavras, que embora estivessem prontas a sair afiadas e contundentes, cortavam-se entre suspiros ofegantes e pensamentos efêmeros. Porém, para ela não importava a aparência confusa de seus passos, ou as decisões casualmente tomadas. Se havia euforia em todo aquele mundo real que incansavelmente tentava tragá-la com suas forças mais repugnantes, havia também certezas sutis e um caminho traçado dentro do seu espírito, um caminho de onde pudesse ver o começo e sentir nitidamente para onde seguir.
Sentia-se cada vez mais livre, mesmo que cada passo concretizado os olhares do mundo se direcionassem para ela cada vez mais tomados de repreensão e dúvidas.
Sentia como se estivesse desabrochando, e a medida que as pétalas envelhecidas caíam cedendo lugar ao novo, ao desconhecido, sua alma gradativamente se desarmava, escoava de emoções faiscantes, derramava-se de vida. Os medos não eram dela, menos ainda as dúvidas e receios, eram todos sentimentos alheios, que melancolicamente caiam sobre ela na tentativa de se fazer presente e transformarem-se em parte da sua carne, dos sentimentos do seu corpo.
Mas toda essa casca de abomináveis expectativas não mais a incomodava, as vozes do mundo perdiam-se entre os seus sonhos, imponentes e encantadoramente apreciáveis. O que ela desejava no mais íntimo do seu ser seria ardentemente perseguido até o dia em que as coisas dariam certo, e as conquistas seriam palpáveis. Então os olhos do mundo estarão admirados, mas isso à ela também não importará, porque não vive pois para esse mundo de indiferenças e desigualdades, vive pois para o seu mundo que ela, a passos irracionalmente calculados, sente pulsar e fará existir.
Não em um dia qualquer, mas agora, durante todo o tempo, para tudo que viver com o desejo irremediável de não ser como todos os outros, mas de deixar em todos os seus gestos a marca de que estava disposta a ser diferente e a fazer diferente.
E mesmo que o tempo passe, mesmo que as coisas mudem, os seus sonhos jamais poderão envelhecer, e as escolhas feitas de coração aberto estarão unidas em ações concretas que irão permanecer na sua história para sempre.

sábado, 26 de setembro de 2009

ALÉM DO QUE SE VÊ

Procuro na maresia extratos da tua alma, estilhaços dos sentidos perdidos em pequenos nadas. Filtro perfumes da tua essência, descubro-te nos vazios do espaço, aglutino-te numa única luz, numa única alma.
És energia constante, fluxo de forças que perambula por galáxias, atravessando universos em busca de corpos que comportem a sensibilidade que carregas. Vestes mil rostos, corpos que se ajustam às formas mais diversas do teu ser.
Afogas-te em mágoas quotidianas, em vidas desperdiçadas em busca do sublimar dos sentidos, encontras-te no toque dos dedos que acariciam o teu corpo, a pele arrepia-se ao encontrar-se com o êxtase da libido, mas, a tua alma clama por outros prazeres.
Choras quando descobres as notas com que construíste a tua canção, as letras que cantam a música da alma, choras ao perceber que há algo para além do corpo que vestes, que há dedos que tocam para além da tua pele, que te abraçam a alma e te fazem voar, sem asas.
Sorris, porque percebes que alguém te segue por todas as dimensões e espaços, e que, mesmo no vazio das tuas quedas, há uma mão que te ampara, uma asa que se solta e te agarra, não permitindo que te percas no abismo.
Para mim, seguir-te é destino, descobrir-te é desafio, encontrar-te é a fé que me faz caminhar pelos caminhos perdidos entre as dimensões, sabendo que em todas elas te encontrarei, me farei presente em ti, deixando indelével marca da minha constante presença em tua alma.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

LEMBRAR VOCÊ


Não vou viver como alguém que só espera um novo amor
Há outras coisas no caminho aonde eu vou
As vezes ando só, trocando passos com a solidão
Momentos que são meus e que não abro mão

Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora

Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você...

Muros e jardins,

Coretos, sacadas.

Segredando nosso secreto

Desejos que escorriam pela argila

que nos abrigava todas as noites.

Tua pele sedenta me enfeitiçava

Seus devaneios me deixava

como se estivesse sob o efeito do vinho.

Sou metade de você

Você é metade de mim.

Somos uma "História De Amor".